Lisbon, October 29, 2009
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Colocar Salazar na históriaeuropeia
Obra preenche uma lacuna na historiografia nacional. Mas também no estudo comparado das ditaduras europeias do século XX. O autor já pensa numa sequela. Para daqui a 25 anos
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A biografia de Salazar foi o projecto que o historiador Filipe Ribeiro de Meneses considerou como "necessário" e capaz de "furar o muro de indiferença que muitas vezes cerca Portugal".
A iniciativa de preencher esta lacuna historiográfica - os investigadores recorrem sobretudo à obra hagiográfica escrita por Franco Nogueira, último ministro dos Negócios Estrangeiros de Salazar, e dividida em seis volumes - tornou-se possível graças a uma bolsa do Irish Research Council for the Humanities and Social Sciences. Que permitiu ao autor libertar-se dos seus "deveres" desenior lecturer na National University of Ireland, em Dublin.
Para a pesquisa académica contribuiu também um convite do Instituto de Ciências Sociais para passar um ano em Lisboa com o estatuto de investigador visitante, possibilitando-lhe o acesso aos arquivos nacionais. Só depois, conta o historiador, residente em Dublin há vários anos, surgiu a proposta da editora norte-americana Enigma Books, especializada em História Moderna e Contemporânea. O livro estará à venda a partir de 1 de Novembro e poderá ser adquirido através da Amazon e do siteda editora (enigmabooks.com).
A relevância de Salazar - A Political Biography é sublinhada pelos historiadores Fernando Rosas e António Costa Pinto, que, apesar de ainda não conhecerem o conteúdo do livro, assinalam que se trata da primeira obra de cariz biográfico escrita por um académico "com mérito e que merece todo o respeito", nota Rosas.
A publicação da biografia não é apenas importante para Portugal, afirma Costa Pinto. "Coloca Salazar no estudo comparado das ditaduras europeias", frisa, destacando ainda o facto de o livro ser publicado em inglês com a chancela de uma editora internacional.
Ribeiro de Meneses, que fez o seu doutoramento no Trinity College de Dublin (a tese, União Sagrada e Sidonismo. Portugal em Guerra (1916-1918), foi publicada em Portugal, pela Cosmos), entende que a escassez de trabalhos em inglês sobre a história portuguesa contemporânea prejudica Portugal. Sem esse material o país "mal figura em compêndios de História Europeia", diz.
"Somos poucos os historiadores portugueses a trabalhar no mundo de língua inglesa, e todos estamos conscientes da escassez de material publicado sobre Portugal. Sem livros e artigos não há cadeiras de História Portuguesa nas licenciaturas; sem essas cadeiras não há pesquisa a nível de pós-graduação; sem essa pesquisa não há publicações, e não há mercado para as editoras", acrescenta. Este "círculo vicioso", como lhe chama, não é fácil de quebrar. Mas o historiador nota que, em Portugal, já há quem tente contrariar esta situação.
Uma sequela só em 2034
Apesar de escrita em inglês, a obra terá certamente um bom acolhimento em Portugal, acredita o historiador. Não apenas pelo seu ineditismo no contexto académico, mas também pelo "enorme desejo" dos portugueses em "melhor compreender Salazar e a sua vida". Isto mesmo ficou comprovado no "súbito despertar de interesse" sobre Salazar, traduzido em "musicais, séries de televisão, banda desenhada e [o concurso]Os Grandes Portugueses" - acontecimentos que foram posteriores ao início da investigação de Ribeiro de Meneses.
Entretanto, o investigador já embarcou noutro projecto - as relações entre Portugal, a Rodésia e a África do Sul entre 1961 e 1981 e as tentativas feitas por estes países para contrariar os "ventos de mudança", proclamados por Harold Macmillan (primeiro-ministro britânico) em 1960 -, mas não colocou de lado a hipótese de avançar para uma sequela da biografia de Salazar.
Porém, esse projecto (escrever uma biografia "mais leve, mais pessoal e menos política", que lhe permita "formular um juízo mais definitivo sobre o homem e a obra") só poderá ser concretizável daqui a 25 anos, quando o historiador se reformar. Porque "há decisões e gestos de Salazar que qualquer um pode e deve condenar, decisões e gestos que levaram senão directamente à morte de seres humanos, pelo menos à evasão de responsabilidades por parte dos autores dessas mortes. Mas é difícil um homem com 40 anos resumir, analisar e dar sentenças sobre a vida de um homem que se manteve política e intelectualmente activo até aos 79". M.J.O.
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